finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

 
Cinco ou seis lições sobre arquitectura: Mahmoud Darwish, da palavra.


محمود درويش


Em 1996, em Buenos Aires, fui com um amigo a uma exposição de pintura japonesa antiga. Não. É melhor começar a história assim: no inverno de 1996, Buenos Aires era a terra do meu exílio, e, certa noite, na companhia de um amigo, admirámos a obra de Katsushika Hokusai. Depois da exposição, o meu amigo, tocado e terno, convidou-me para beber algo. No café, olhou-me nos olhos e disse-me um poema, obra de um poeta exilado – e foi a primeira vez que ouvi o teu nome, Mahmoud.

Mas é provável que a história seja outra, que comece assim: em 1983 eu chegava ao Rio de Janeiro vindo de uma cidade distante. Tinha 17 anos, e todos os erros pela frente. Foi um libanês que me ensinou três coisas, a amar, a fazer bem a barba e a gostar da poesia árabe, talvez tenha sido aí, sim, que ouvi pela primeira vez o teu nome, Mahmoud.

Não, enganei-me nos factos. Não foi nem em Buenos Aires, nem no Rio de Janeiro que te ouvi pela primeira vez. Lembro-me bem, sim, agora mesmo, como se fosse ontem. Estávamos em Foz do Iguaçu, no sul do Brasil. Éramos uns banidos, toda a família. Eu tinha um vizinho, turco, com a mesma idade que a minha, 5 anos?, talvez. Chamava-se Ömer, quando o vi pela primeira vez, soube desde logo o que era o amor. Eu não sabia nada de poesia, e achava que as estrelas cantavam à noite com os grilos, e que no país do meu amigo, todos eram bonitos como ele. Os seus pais gostavam de um poeta que falava de exílio – e às vezes, quando a minha mãe permitia, eu dormia na casa do Ömer embalado pela voz do seu pai a recitar Mahmoud.

Outro engano, não foi em Foz do Iguaçu. Agora tenho a certeza. Em 1965 uma adolescente trabalhava como empregada doméstica na casa de pessoas ricas, numa cidade no interior de São Paulo. Aos 15 anos engravidou de um homem casado e foi expulsa do trabalho onde vivia. Sozinha, sem ninguém, foi ajudada pelos outros empregados da casa que lhe encontraram um abrigo. Até o nascimento da criança, ela pouco podia fazer. Foi um palestino, caixeiro-viajante, que a auxiliou nos momentos de maior angústia. Agora me lembro bem, uma noite, sob as estrelas, este palestino nascido em al-Birwa recitava para os ouvidos espantados da minha mãe, num idioma incompreensível para ela, toda a poesia amarga do exílio. Eu estava dentro dela acordado, e ouvia tudo – agora compreendo a tua mensagem poética, Mahmoud. Esta tua Palestina, erguida com a arquitectura subtil e frágil da língua, é mais forte que pedra lavrada, que obra de cantaria. Neste teu país, edificado pelo idioma, o colonialismo não tem governo

- o amigo da minha mãe também se chamava Mahmoud, como tu,


Mahmoud Darwish





Escrito por OSCAR MOURAVE às 02:07 Comentários:

 

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